aos dias de pôr, próxima aos do nascer

sábado, 27 de novembro de 2010

O teu Conto

Acordei com uma dor que era somente minha, era de mim e sabia doer só nesse corpo. Ergui meus cílios e sentei no sofá, havia feito minha madrugada naquele desconforto sobre duas almofadas que afofaram meus pesadelos. Imediatamente enlouqueci e cuspi de mim a vontade de gritar, de arrancar essa dor, de fazer dela poeirinhas de liberdade, ciscos de tranqüilidade e coceiras de paciência. Então, me fiz de boba e desobedeci a mim mesma, quis me atordoar mais um pouco, mas bem rápido pra não doer muito. Tirei um pulo dentro desse eu, me desgovernei e comecei a espichar minha elasticidade até escutar os estalos das articulações, me alonguei de uma forma que surpreendeu minha altura, sendo que naquele episódio turbulento e de total descontrole: senti um lado anestesiado de mim que me fez crescer mais um pouco. Era uma Dor, perfeita e que calava qualquer língua, intensa e confortável, acho que porque era de mim, todinha minha, e eu egoísta com ela Sim. Mas, no meio dessa gana de erguer músculo, de me atirar pra cima, de subir com todo corpo, aconteceu algo de cessar movimentos respiratórios, aconteceu algo de tirarem de mim por doida, mas é verdade nesse meu devaneio: de tanto que me espichei acabei arrebentando com a dor, ela se estraçalhou e se foi por aí, se largou e zuniu dos meus poros e não disse nada, apenas foi calada. Mas era minha e fiquei de cara, consegui pensar então em outras coisas que me relatassem tudo que doeu nesse tempo como sendo uma outra parte de mim, talvez um pedaço que estava preenchendo esse meu lado torto e impuro que me fazia bem, até que ponto eu não sei, mas a dor era minha e eu estava vivendo contente por aquele canto... Quis então, me soltar e não sentir nenhum peso, quis fugir de mim mais leve, quis grunhir uma vontade de me largar no vento, quis voltar a mim apenas para sentir e sair fora do meu presente, sendo outra pessoa...E o mais importante do que veio a mim com a fuga desse meu outro lado: a gana de rabiscar o acontecido, de me rasgar em papel tudo que havia sentido, de arrancar de mim palavras imperfeitas pra poder ler alguns versos e conseguir sentir tudo novamente, quis fazer isso pra nunca mais perder essa sensação que foi somente minha... Então, comecei a escrever sem nenhum princípio, sem saber esticar, alongar e pontuar palavras, mas eu comecei apenas cuspir de mim sentimentos... Não tive nenhum sentido que me levasse ao início das escritas, porque aquela dor já estava empoeirada e eu não conseguia senti-la em algum começo. Então eu resolvi não seguir nada, não existiu o que se basear e nem o que comparar pra começar a sentir esse voo que fez parte do meu texto e da dor. Desobedeci minhas rédeas e me habilitei em seguir uma estrada, sem semáforo e nem esquina, sendo apenas eu me sinalizando e discutindo em mim esse lado que já não era Eu, esse lado então que resolvi escrever... Eu apenas engatei sei lá que marcha e peguei um impulso numa curva e me fui, mas me fui bem longe e quando eu senti a tua falta eu comecei a travar, pensei que ali estava o princípio, me irritei ainda mais e me desviei do que eu sentia, parece que o carro tava afogando e eu ficando mais lenta, parada, pálida e por si só, mesmo sem princípio nenhum eu me fui e ainda, largando poeira apenas lá atrás, às vezes eu erguia o capô só pra tomar a água do radiador, porque a tua imagem me secava quando eu estava voando naquela estrada de chão e fazendo algumas poeiras. Eu estava subindo e quase que sem freio pra puxar os limites e você desidratou este corpo e eu tive que parar no meio do caminho. Então, fechei os olhos e meti goela abaixo aquele líquido a fim de que eu andasse mais um trecho e fizesse de mim sem o teu princípio, sem o princípio que era você, sem sentir você para que eu pudesse seguir adiante e continuar procurando o início da dor, pois não tinha que terminar ali a procura, não tinha que ser você toda aquela dor... Resolvi descer do carro e quando me olhei no espelho não vi mais eu, eu não via mais nada, era eu nua internamente e empoeirada, aqueles olhos não me pertenciam e eu estava visualizando o que o meu Eu tinha sido lá atrás e assim ele enxergava algumas lembranças de quando a gente se amou e também restos do que foi poeira deixada pelo meu afogador e tudo isso me fez ser outra pessoa que nunca mais Eu e me fez analisar todo e qualquer tipo de Ser que não Eu... A partir desse instante coloquei meus óculos e passei a ser leitora das minhas palavras, leitora de você, dos teus passos, da tua significância e plenitude, e mesmo sem ter a certeza de que foi você o princípio, as partículas foram de um aquecimento, e então comecei escrever ainda mais , mesmo que no meio da estrada que sem asfalto, mesmo que no meio do caminho que não o nosso, mesmo que sem saber mais nada de mim... Era um carro todo encatarrado, sem compasso e nem suingue, mas eu estava curtindo saber mais dele... Comecei a me secar por dentro, querendo te deixar sem nenhuma água, querendo que você ficasse quieto por muito tempo, querendo não te sentir nenhum pouco, querendo hibernar a tua pessoa, querendo que não fosse o princípio... E assim, tirando todo meu líquido e salivando num trapo de pano eu ia limpando por fora, limpando qualquer coisa e ao mesmo tempo esfregava o trapo na minha pele a fim de achar outro caminho, a fim de resgatar outra estrada, a fim de me reinventar noutro lado... Mas não se via mais nada e só de sacanagem eu parei no meio da pista, desci do automóvel e sentei no capô, me espichei até empoeirar todas minhas roupas, até sentir o gostinho de poeira de chão, até salivar mais um pouco e amar ainda mais aquela sujeira, me revirei toda nele e me atirei pra dentro novamente, indo no tranco porque o arranque era só de sujeira. Então, me entreguei a mim mesma e fiz questão de resgatar o teu Ser, te carreguei nos meus braços e do teu corpo apenas limpei o coração, com o mesmo trapo de pano, encostei o teu corpo no banco traseiro, ajustei o cinto de forma suave e te deixei com uma rosa entre os dedos... Beijei seu rosto, fechei a porta, joguei meu corpo pra estrada, mirei uma descida e puxei de mim toda coragem que me fez um indivíduo quando empurrei o carro levando o teu Ser, me aventurei a certificar-me daquela Dor...

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei, Camila !
Meus Parabéns, és demaissss !
Bjs,
Prof. Tusi