aos dias de pôr, próxima aos do nascer

quinta-feira, 31 de março de 2011

Eu em mim


Um dia jurei amor eterno
implorei, rezei:
naquele momento
hoje eu aprendi
a calar a boca

Um dia jurei amor eterno
somente tu na minha frente
nas costas, nos cantos
no caldo, na carne
no peito, na respiração
no meu pulso e sangue
Tu, em mim:
nos processos vitais
desse corpo

Hoje aprendi
a me enxergar
aos poucos,
pelos poros
e deixar a matéria
sobrepor minha
própria existência:
Eu em mim...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Inteira, serei eu




Integridade que pulsa o meu libido
Te fez de líquida nessa dor
Para deslizar nas minhas formas
Te fez de decepcionada nessa mentira
Para acreditar na tua verdade!

Integridade que canta ao pé
Dos meus lados disformes
A fim de preenchê-los
Com uma canção
A fim de me fazer mulher
Com um pouco mais de melodia...

Integridade que manipula
Um jeito, uma forma
De formar uma companheira
A fim de acabar com a deformação
Que tranca meu acabamento
Na construção da fidelidade

Um dia, Integridade serei eu
Inteira aos pés do teu
Corpo já inteiro,
Já formado!

quarta-feira, 23 de março de 2011

me fui




Nem espaço pequeno pra
Eu ir embora
Me fui e abandonei tua presença
Nem espaço pra eu habitar
Outro coração
Mas eu me fui
Com o propósito
De apenas ir

Nem espaço grande pra
Eu ficar
Me fui com a fumaça do teu cigarro
Nem espaço pra me apertar
E sufocar a partida
Me fui ao espaço
Que nem a natureza
Criou ainda

Nem espaço
Pra eu me caber bem
Me fui
Talvez somente
Pra te deixar viver
No vazio pra onde fui...

Me fui
Apenas pra curtir
A consequência...
Me fui
Porque um dia te achei
Me fui
Porque também te perdi...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Forte, do fim

Sabor era o gosto que detinham nossas carnes
Forte era nossa madrugada
Mesmo de roupa a gente fazia amor
Apenas trocando orgasmos por uma mesma
Ambição: a de estarmos juntas

 
Forte, foram nossos beijos
Que mesmo escassos eram
Nutridos pela cafeína da nossa dignidade
A nossa
Circulação: eram os nossos líquidos
E a troca de sangue
Talvez fosse a cumplicidade
De sofrer pela mesma causa:
Nosso amor proibido


Forte, criatura
O teu silêncio carregou
As vezes que deixei de
Pronunciar um pouco mais de
Palavras verdadeiras
Um pouco mais de fidelidade...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fios da minha cabeça



Fios da minha cabeça e do vento que também pertencem agora, onde está a ponta desses meus longos lisos? Estou literalmente sentindo a cara sendo esmagada, está batendo de frente e de canto e de lado, tudo contra aos ponteiros de cem quilômetros por hora, muito mais (eu acho), bem mais que isso (tenho certeza). O canto da pupila agora é vesgo, a desorientação é total, os olhos decidiram grudar numa reta asfaltada de linhas contínuas não permitindo que os meus longos fios ultrapassem as escancaradas janelas da frente desse automóvel. Divino prensar a cara e afogar na ventania que faz zunido no íntegro da minha escuta esquerda, porque a da direita resolveu de escutar o ronco do motor. Sabe, a cuca começou a acreditar na dormência daquelas faces: grudaram os glúteos médios nos encostos dianteiros e ainda, escancararam os vidros pensando que a bunda de cada um fosse voar pela janela. Mas eu quero bem mais que isso, mais e mais e que venha o veloz vento voando a viagem inteira. Nesse instante, o meu corpo: cabelos eletrizados, a competição dos elétrons torna-se requisito para entrarem em circuito, o estado é iônico, as secreções internas subiram mais ou menos uns dois catarros, os longos fios não dão conta do vendaval (mesmo assim eles descobrem algum arrepio em cada voo e sobem e descem e grudam e desgrudam e enrolam o meu pescoço e dão laçadas no meu rosto e eu quero mais). Tudo isso é sentindo o balanço gostoso das quatro rodas e também com os quatro cantos do meu rosto achatado, e quando não vejo o asfalto e nem arborização e nem a bicharada: apenas me sinto numa estrada de chão com os fios competindo o ar com toda essa poeira. A velocidade diminuiu, nós três estamos na traseira de um caminhão de leite, e a nossa traseira esperando uma curva para resgatar os meus cabelos na dobrada. Tudo está ficando morno e o leite da frente prestes a derramar, a máquina voa na mesma velocidade dos lácteos, quer subir junto com as bebidas na leiteira, tudo corre e gira e os pêlos espetam meu corpóreo, estão grandes e sendo estimulados pela adrenalina e ventania. Tentei localizar os refletores e só enxergar cabelos. Então, toquei o rosto e levantei a mão na sobrancelha. Achei um fino risco de pêlos sebentos que puxavam os cantos quadrados do meu cabeção para os lados: e dos poucos pegavam distância uma da outra, elas também queriam governar sua própria liberdade. Passaram-se oito segundos e os meus cabelos puxavam resquícios da minha pele, direcionando a todos os cantos. Imaginem, meus amigos, cada fio levando a minha condição existencial para cada lugar de um forma desesperadora, como se pudessem fazer uma competição de orgasmos entre si, vendo qual dos cantos gravitacionais davam às minhas partes mais prazer. Quais das pontas dos fios me excitariam em todas as entradas dos meus orifícios. Ainda estou em oito segundos e o carro tonteia os espelhos em passagens das paisagens em termos eufóricos de centésimos. As rodas aquaplanam e flutuam. Os indivíduos da frente governam o veículo. E eu? Sim, óbvio que estou com porcarias de dificuldades de prender meus dedos a fim de continuar desgovernando minhas rédeas, sabendo da imensidão do poder dos meus cabelos. E eu não consigo me descrever, estou nadando de costas no vento e o corpo sente tudo isso somente com os fiapos dos cabelos. Estou sem visão e nem cheiro. Nem contato e muito menos pêlos. Nem escuta e nem cera. Mas os órgãos palpitam uma duplicação de sentidos. Estou como um fio de cabelo único que finca se enfiar em todos os buracos da traseira de um secador. Completos dez segundos de uma viagem e mais eternos segundos em ânsias de um tremendo vomitório, em que o líquido esvaído não pede licença aos cabelos e lava-os com vagabunda tranquilidade. Desculpas, automóvel, pelo agradável aroma em que presenteio o estofamento dos bancos. Desculpas, mas você também vomita elementos desagradáveis pelos canos da tua carcaça!

segunda-feira, 14 de março de 2011

poesia.esia.ia.a



poesias.
    poeiras.
por.ai.
nas.
freguesias.
em.vilas.
aspirando
.maçãs.
macias.
 poesias. 
existia.em.
 pó.assim.eu.
vendia.a.
 poeta e a 
poesia.
 poesia.
esia.
sia.
ia
com 
a dita
cuja
que
dizia.
ser
uma 
 palavra
de
 poesia
.

 poesia.
é tua
nunca
minha.

 poesia
existia
ao
 pé
do meu 
dedo
 no período
que pensava
em fazer uma.

 poesia
é tua
nunca 
minha.

o poema
tem o 
  pulmão
do 
fumante
  o peito
de quem
amamenta
  e o ponto
de quem
já amou...

poeisa
é tua
nunca 
minha.

poesia
também
 pode
ser
 putaria.

Eu: molécula




Eu:
Uma gota
de molécula
Que molha
Nos canos

Nos mais finos
Pra pressão
Ser maior

Nos mais longos
Pra trajetória
Ser longa

Que eu me sinta
A pressão de uma água
De um vazamento
catastrófico

Que eu abasteça
O prazer das torneiras
De um orifício
Pra outro elemento

Que eu sacie
A sede das torneiras
Que esperam
O meu jato
Cruzando
O buraco que permite
A minha passagem

Que eu molhe
A pia
O chão
O tapete
E os pratos

Que eu limpe
As taças 
todas sujas
Para que eu possa
Ser bebida com dignidade
num gole de água divina!

Quero me sentir
Uma água galopante
Num cano estreito
Dos encanamentos

Quero me sentir
A saída do líquido
Quando as particulas
Colidem com as paredes
Da atmosfera!

Quero me sentir
Um líquido
Pra saciar
A vontade
De alguém...

Edital de Eleições da Casa do Poeta de Santiago

CASA DO POETA DE SANTIAGO
Casa Caio Fernando Abreu


CONTATOS:
Casa do Poeta Brasileiro de Santiago
Rua Silveira Martins, 1432, Centro
CEP: 97700-000, Santiago, RS
Telefone: (55) 8406-7896
Blog: casadopetadesantiago.blogspot.com
E-mail: casadopoetadesantiago@ig.com.br


EDITAL DE CONVOCAÇÃO PARA ELEIÇÕES
DIRETORIA ADMINISTRATIVA – 2011/12



A CASA DO POETA DE SANTIAGO, pelo presente Edital, convoca todos os associados, regularmente matriculados, a participarem da ELEIÇÃO para a Diretoria Administrativa da entidade sem fins lucrativos, nos termos do Estatuto da Casa, com o seguinte cronograma:

Art. 1º - INSCRIÇÃO DE CHAPAS (Presidente e Vice) – até 7 de abril de 2011, na sede da Casa do Poeta de Santiago, na rua Silveira Martins, 1432, das 14 às 17 horas.

Art. 2º - VOTAÇÃO – 07 de maio de 2011 (sábado).
- 1ª chamada: 19h00min (todos os associados).
- 2ª chamada: 19h30min (associados presentes).

Art. 3º POSSE DA CHAPA ELEITA – 19 de maio de 2011 (Quinta-feira), durante a II Semana Literária de Santiago.

Art. 4º A pré-inscrição das chapas para a ELEIÇÃO da Diretoria Administrativa deverá ser endereçada à Comissão Eleitoral, por meio dos e-mails: gpasini@ig.com.br ou casadopoetadesantiago@ig.com.br.

Art. 5º A entrega dos documentos necessários à inscrição (Ficha de inscrição de chapa preenchida, com o nome completo dos candidatos a Presidente e Vice, cópia do RG e do comprovante de mensalidade em dia) deverá ser feita na sede da Casa do Poeta de Santiago, até o dia 7 de abril, até as 17h00min. Não serão aceitas as inscrições realizadas fora do prazo determinado no Art 1º, ou de associados que possuam irregularidades financeiras junto à Casa.

Art. 6º Para compor a Diretoria da entidade, será considerada eleita a chapa que obtiver a maioria simples dos votos atribuídos às chapas, na 1ª ou 2ª chamadas. Casos omissos serão resolvidos pela Comissão Eleitoral.

Santiago, RS, 07 de março de 2011.

Comissão Eleitoral da Casa do Poeta

Carlos Giovani Delevati Pasini - Presidente da Comissão (gpasini@ig.com.br)
Maristane do Couto Pedroso - Membro
Vanderlei Silveira Machado - Membro

sexta-feira, 11 de março de 2011

curvas anatômicas



Mãos macias
Soltas em curvas
Anatômicas
Esperando
Meus sussurros
Para prensar
A nossa carne
Fisiológica

Mãos firmes
Agachadas
deslizando
Em compassos
Rítmicos
De vozes
Vagabundas
Que vingavam
Várias vezes
A virilha

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ah, Camões...

O vestibular da Universidade da Bahia cobrou dos candidatos a interpretação do seguinte trecho do poema de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer."

Uma vestibulanda de 16 anos deu a sua interpretação:

"Ah, Camões! Se vivesses hoje em dia,
Tomavas uns antipiréticos,
Uns quantos analgésicos
E Prozac para a depressão.
Compravas um computador,
Consultavas a Internet
E descobririas que essas dores que sentias,
Esses calores que te abrasavam,
Essas mudanças de humor repentinas,
Esses desatinos sem nexo,
Não eram feridas de amor,
Mas somente falta de sexo!"


A vestibulanda ganhou nota DEZ pela originalidade, pela estruturação
dos versos, pelas rimas insinuantes e também porque foi a primeira vez que,
ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou que o problema de Camões era
apenas falta de mulher.

sexta-feira, 4 de março de 2011

prazer da minha dor



Literalmente, ainda escuto os ecos não do meu grito e nem dos berros, mas sim do tesão que eu senti após fincar com todo meu compasso a minha epi, meso e endoderme no canto daquele móvel rústico. Gente, foi incrível, está sendo incrível, tomara que esse orgasmo não esteja beirando a saída da dor. Eu gozei, e não pensem que essa pessoa banhou as calcinhas. Negativo, muito pelo contrário: emplastei de um estágio intermediário de lubrificação o forro dessa tapa-gaita...

*Trecho do livro que estou escrevendo

quarta-feira, 2 de março de 2011

Desconhecidas




Como pode minha desconhecida?
Nossa estranheza nos jogar na cama
Seguindo adiante em nos desconhecer
Calei-me na interpretação das tuas tatuagens
Não perguntaste por que roia minhas unhas
Apenas, nos beijamos e engolimos os porquês.
Dormiste com uma garota
E eu conheci mais uma mulher
Como pode minha desconhecida?
Esse descompromisso nos levar ao amor
Como pode?
Talvez fossem dispensadas as cicatrizes
Talvez já nos conhecêssemos nas mesmas marcas
Talvez já entendêssemos que no amor
Não há muito que compreender além disso

Sem vem algo a recordar
São os lábios entrelaçados
Nada além pra conversar
Numa noite inconseqüente
Em que nossas carências alimentavam-se de vinho
E nossas línguas tortas giravam na falta de assunto
Soletrando o prazer nas paredes da cozinha
Escorando nosso silêncio
Nas quatro bocas de um fogão
Parecíamos duas gagas
Rumo a uma canção composta
Pelo medo de mais uma senhora permissão
Então, os meus dedos encaixaram-se nos teus
As tuas mãos pegaram as minhas
Brinquei com o teu alargador
E tu com o elogiar do meu sorriso
Eu, muito educada respondi: Obrigada!
Respeitei a tua altura e flexionei centímetros os joelhos
As pontas das coxas roçaram-se por vontade imprópria
O vinho tomou posse do calor
E nós, já empossadas por si só com o ar quente
Que trocávamos no intervalo de cada beijo
Como pode minha desconhecida?
Um, dois, três e...
Quando me dei conta
Me fui, me joguei
Te amo com a mesma altura de antes
Esse descompromisso mereceu ser chamado de amor...