aos dias de pôr, próxima aos do nascer

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fios da minha cabeça



Fios da minha cabeça e do vento que também pertencem agora, onde está a ponta desses meus longos lisos? Estou literalmente sentindo a cara sendo esmagada, está batendo de frente e de canto e de lado, tudo contra aos ponteiros de cem quilômetros por hora, muito mais (eu acho), bem mais que isso (tenho certeza). O canto da pupila agora é vesgo, a desorientação é total, os olhos decidiram grudar numa reta asfaltada de linhas contínuas não permitindo que os meus longos fios ultrapassem as escancaradas janelas da frente desse automóvel. Divino prensar a cara e afogar na ventania que faz zunido no íntegro da minha escuta esquerda, porque a da direita resolveu de escutar o ronco do motor. Sabe, a cuca começou a acreditar na dormência daquelas faces: grudaram os glúteos médios nos encostos dianteiros e ainda, escancararam os vidros pensando que a bunda de cada um fosse voar pela janela. Mas eu quero bem mais que isso, mais e mais e que venha o veloz vento voando a viagem inteira. Nesse instante, o meu corpo: cabelos eletrizados, a competição dos elétrons torna-se requisito para entrarem em circuito, o estado é iônico, as secreções internas subiram mais ou menos uns dois catarros, os longos fios não dão conta do vendaval (mesmo assim eles descobrem algum arrepio em cada voo e sobem e descem e grudam e desgrudam e enrolam o meu pescoço e dão laçadas no meu rosto e eu quero mais). Tudo isso é sentindo o balanço gostoso das quatro rodas e também com os quatro cantos do meu rosto achatado, e quando não vejo o asfalto e nem arborização e nem a bicharada: apenas me sinto numa estrada de chão com os fios competindo o ar com toda essa poeira. A velocidade diminuiu, nós três estamos na traseira de um caminhão de leite, e a nossa traseira esperando uma curva para resgatar os meus cabelos na dobrada. Tudo está ficando morno e o leite da frente prestes a derramar, a máquina voa na mesma velocidade dos lácteos, quer subir junto com as bebidas na leiteira, tudo corre e gira e os pêlos espetam meu corpóreo, estão grandes e sendo estimulados pela adrenalina e ventania. Tentei localizar os refletores e só enxergar cabelos. Então, toquei o rosto e levantei a mão na sobrancelha. Achei um fino risco de pêlos sebentos que puxavam os cantos quadrados do meu cabeção para os lados: e dos poucos pegavam distância uma da outra, elas também queriam governar sua própria liberdade. Passaram-se oito segundos e os meus cabelos puxavam resquícios da minha pele, direcionando a todos os cantos. Imaginem, meus amigos, cada fio levando a minha condição existencial para cada lugar de um forma desesperadora, como se pudessem fazer uma competição de orgasmos entre si, vendo qual dos cantos gravitacionais davam às minhas partes mais prazer. Quais das pontas dos fios me excitariam em todas as entradas dos meus orifícios. Ainda estou em oito segundos e o carro tonteia os espelhos em passagens das paisagens em termos eufóricos de centésimos. As rodas aquaplanam e flutuam. Os indivíduos da frente governam o veículo. E eu? Sim, óbvio que estou com porcarias de dificuldades de prender meus dedos a fim de continuar desgovernando minhas rédeas, sabendo da imensidão do poder dos meus cabelos. E eu não consigo me descrever, estou nadando de costas no vento e o corpo sente tudo isso somente com os fiapos dos cabelos. Estou sem visão e nem cheiro. Nem contato e muito menos pêlos. Nem escuta e nem cera. Mas os órgãos palpitam uma duplicação de sentidos. Estou como um fio de cabelo único que finca se enfiar em todos os buracos da traseira de um secador. Completos dez segundos de uma viagem e mais eternos segundos em ânsias de um tremendo vomitório, em que o líquido esvaído não pede licença aos cabelos e lava-os com vagabunda tranquilidade. Desculpas, automóvel, pelo agradável aroma em que presenteio o estofamento dos bancos. Desculpas, mas você também vomita elementos desagradáveis pelos canos da tua carcaça!

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