aos dias de pôr, próxima aos do nascer

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

crônica final dos retalhos

O certo           &            errado


O certo é não fumar, não beber, não roubar e não trair. O certo é preparar a mala todas as manhãs para fugir de casa e chegar à esquina, olhar para trás, esperar alguém lhe chamar e implorar uma volta e o errado é você não voltar. O certo é saber quem foi Darwin, Deus e também o Diabo. O errado é você não saber quem foi você, ou melhor, quem é você. O certo é dormir sem nenhuma lucidez e pensar durante a madrugada que as coisas vão piorar, que o dinheiro que temos não será suficiente para pagar as contas, que a gasolina vai subir e o Vale Gás acabar, que o filho criado é trabalho dobrado e que você vai arrumar a mala, pegar algumas roupas, uma garrafa de água mineral, e alguns cereais e fugir no outro dia de manhã bem cedo. Mas, o certo mesmo de tudo isso é você acordar no outro dia e dar bom dia de volta à sua lucidez e desfazer a mala, pois sabe que encontrará seus filhos ao meio dia na sala de jantar, comendo arroz branco, bife acebolado, feijão e salada verde com um saleiro ao lado. O certo mesmo é você ter elegância, parar na faixa de segurança, responder seus e-mails, comer certo, usar fio dental e fazer exames de rotina. O errado é falar alto, gritar, conversar com a boca cheia de comida e limpar a boca na manga da camisa. O certo é saber sair de casa, é saber fugir, saber ir sozinha ao cinema e chorar sem ao menos se pensar numa solidão, o certo é escutar uma música e lembrar de alguém, ou melhor, saber lembrar de alguém: lembrar bem lembrado, para que você também possa lembrar dos momentos bons. O certo e o errado e tudo o resto. O certo a gente sabe, você sabe, todos nós sabemos e o errado também. Mas quem sou eu para dizer o que é certo e o que é errado? Alguém que talvez um dia será mãe e pai, alguém que talvez um dia acordará com a mala pronta, alguém que um dia talvez terá que trocar o pneu do carro do vizinho ou alguém que perderá um grande amor e mesmo assim, terei que continuar fazendo tudo o que eu fazia antes, só que porém: sozinha. Terei que ir ao cinema sozinha, dividir o travesseiro com o cachorro, pagar uma conta a menos de telefone, fazer o pedido de meia alaminuta e brindar com apenas um copo de suco. O certo é você dividir a companhia das coisas que você fazia antes com você mesmo. Afinal, para que melhor companhia? O errado é você carregar o fardo da solidão e acreditar que você é única pessoa no mundo que sofre a perda de um amor. O certo é você cair na realidade e ver que isso ocorre às pencas! O certo é você relaxar, porque a solidão só é percebida por dentro. O certo é você se preocupar com o próprio umbigo e com a própria felicidade, por mais que tenha gente por aí que se preocupa com a sua. O certo é desconectar nossa percepção de solidão com o status social. Estás sozinha e não solitária. Estás certa e não errada. Mas então, como fugir de casa sem ao menos ninguém enxergar que horário aconteceu o ocorrido e sem ao menos a vizinha do lado não deixar você ir muito longe? Simples, leia um poema e viaje com ele. Segure as rédeas e balance o freio. Boa leitura dos meus poemas em retalhos, ou melhor, boa fugidinha! Se você comprou o livro, o certo é você ler...

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