aos dias de pôr, próxima aos do nascer

segunda-feira, 21 de maio de 2012

a dois passos de uma vida...



Começa aqui, outro lado de uma vida. Não que eu já esteja em despedida do presente, mas com uma breve certeza de que as Faces e os Retalhos já me deram sustância para as suas despedidas. Já alimentaram o fluxo sanguíneo dos tecidos cardíacos e equilibraram os movimentos de sístoles e diástoles dentre tantas faces ou apenas duas. Agora, já basta, acabou. O que tinha de mostrar, já deu. O coração que tinha de ser costurado já arrematou. A face que tinha de ser curada já cicatrizou. Os dois corpos paralelos já dialogaram frente a frente. A conversa já foi conversada, o dito já foi dito. A promessa muito antes já havia sido rompida e o universo só dizia para paráramos tudo, parar de sofrer, parar de brincar com cada dia que passava, parar de esgotar cada segundo jogado na imundice de se odiar. Parar com a ficção e viver a realidade. Parar, apenas parar. Os corpos eram envolvidos por vontades impróprias, por pensamentos confusos, por medo e orgulho. Mas com todo o coração de pedra, sólido e decidido em toda e qualquer dúvida daquele momento, decisão conclusiva de que naquela vida, só havia uma opção: terminar uma vida de cada vez. Se um dia seguir, jamais neste mundo. Se um dia parar, que seja neste instante. Os corpos já foram embalsamados num véu de pano poá. 
 

 

O Agora fica as releituras de apenas um ângulo, uma explicação, um momento – preparado e despreparado, junto e desajustado. De uma ou duas ou três pessoas. Foi deste lado, um lado: as faces; o outro: os retalhos. O outro lado não deve ser muito diferente. A única coisa que ainda esperava era por mim mesma, os meus pertences e ‘despertences’, antes de arrancar nas próximas palavras. Do relógio e das cobranças já livrei. Já livrei também as explicações. Já livrei o peso da perda. Já livrei aquele amor. Já livrei, lavando a fidelidade do meu ego. Espero-me numa esquina que tenha um nome bem grande, que não caiba na minha saliva. Esperar por algo enorme é se contentar com um pouco menos mais tarde. Esperar por si é uma das melhores coisas que busco nesta, ainda. Literalmente, espero também um amor, fazendo permuta do termo esperar. Ou melhor, espero todos os dias por ele. Aliás, nas tentativas em esperar os frutos para colher, eu já nem mais penso numa espera, esperar é viver de ilusões. Ser uma ilusão é vender cada dia uma paciência. Santo, santo, santo... 

Quantos dias perdidos que não foram meus, quantos que foram mal entendidos, quantos que talvez me “desoportunizaram” de pensar em outra vida. Quantos perdidos em não pensar mais na pessoa da minha frente, na pessoa que me encarava, que prestou atentamente uma aposta no meu amor, que me isso e me aquilo e eu nem ali e nem aqui. Quantos dias que para enxergar tive de antes perder os dois olhos nesta vida, quantos meses até sentir que eu era o seu sentir, quantos meses até aceitar que fazia um mês completo que havíamos nos conhecido. Quantos? Não sei, não sabia contar naquela vida. Os segundos eram suados, esperados por algum motivo que não queria saber. Assim, tive de perder o coração, aprender a falar um eu amo, aprender a caminhar: um pé e depois o outro. Aprender a estar contigo sem nenhum contato fisco. Talvez tenha que esperar de braços cruzados na bendita esquina, mas terei o prazer de apenas esperar por ele. Se viver ou não, sei lá. O que busco é esperar do outro lado, que seja completo e que a eternidade se "eternize". Neste lado, cá entre todos. 


Todos que não me olham, não falam, não mais vivem em mim. Esses todos um dia foram eternos no meu presente. Foram as pessoas mais lindas do século planetário. Foram todos importantes, mas foram, se foram e nada mais do que ir embora sem dizer nada, apenas jurar a outra vida. O outro lado foi promessa, palavra que não irei esquecer, a não ser que eu esqueça de mim do lado de lá. A não ser que me façam esquecer. A não ser que eu já tenha esquecido. Todo o amor que houver aqui, desejo ser incompleto. Que faltem pitadas, que haja lágrima para lubrificar o prazer. Que seja lindo, que terminemos por aqui também. Assim digo, assim que sinto, assim que estou. Sou assim. Ah, do outro lado. Por favor, um empurrão lá de cima do penhasco para que eu possa te encontrar por baixo... 


Um passo nesta vida e mais um para a outra. Todo o amor que houver do outro lado, que seja eterno! O amor deste lado será também.

Um princípio confuso, duas identidades que se mesclaram. A dualidade não me permitiu a abandonar o amor que estou vivendo, o meu é forte e o teu é verdadeiro. 

A eternidade que se concretiza aqui é desproporcional tanto quanto tudo que passamos para chegar ao mesmo lugar. 

A dualidade nos tornou mais fortes e as várias pessoas que tivemos nos tornou mais verdadeiros.

Um princípio conturbado. Pranto, manto, tanto e tanto milhares de lamentos!

Que a dualidade permita uma eternidade. Que na primeira vida eu não esteja enganada. Quero que o fecho nos traga no deslizar do zíper. Quero que o desfecho vá até ao nosso final.

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