Correr eu ia

Correr eu ia
Um dia de cada vez, por favor. A
correria da mesma rotina nos torna pessoas impotentes de pensar o momento em
que há vida, o presente em que vivemos. Como a famosa frase: Carpe
diem! Aproveitar o agora e deixar que as tensões sejam levadas ao ralo, ao som
da água do banho e derretidas ao vapor de uma ducha quente. ‘Para tudo hoje em
dia se corre’. A meta é vencer e a recompensa fica no mérito de atingir sempre
mais. Parece que a cada hora temos que fazer render vinte e quatro dias, o que
por sinal é muito bem feito. Mas o sossego fica em última estância, deixamos de
cuidar do nosso corpo nas vinte e quatro horas do mesmo dia. É difícil dar
atenção às coisas que não são exigidas num cronograma de um planejamento, assim
como também parece pecado tirar um mês inteirinho de férias. Parece que nunca
estamos prontos para receber um merecimento ao alcance dos que nos foi
proposto, ao alcance do que realmente fizemos... O tempo existe, há quem diga
que não. Mas eu existo e também assim como vocês tento controlar pelos
calendários e relógios a sua cabeluda passagem. Fiquei sabendo de sua real
existência há poucos dias, quando pronunciei algumas palavras, no Salão Nobre
da Escola Salgado Filho, para algumas pessoas e também ‘professores’ que haviam
sido meus professores. Falei diante de mestres dos quais eu era acostumada
ouvir, escutá-los... Esse encontro foi na III Feira do Livro e o pulmão daquele
salão respirava conhecimento. Descobri que a Escola continuava sendo Escola e
que o salão era o mesmo, por mais óbvio que se pudesse redescobrir. O foco
dessa pupila descobridora era o olhar diante do próprio tempo. Tive a
oportunidade de inspirar um tempo que achava não ser tão cedo lembrado, tive o
prazer em expirar com sincronia e calma o gosto de lembrar bem lembrado. Tudo era
conjunto: o piano e a prof. Iolete; as pessoas e o tempo translúcido em cada
uma delas... Às vezes correr para não perder um ônibus é inevitável, mas quando
chegamos ao destino e continuamos a olhar o relógio acabamos traindo o
propósito da chegada. Por muito tempo
pensei que o futuro era uma ilusão à nossa frente, quando na verdade era apenas
uma sensação infinita! O tempo existe, eu também!
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