aos dias de pôr, próxima aos do nascer

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Falando com as paredes

 
Falando com as paredes
Quem já não se pegou despercebido falando com as próprias paredes? Quem já não ensaiou um discurso com o espelho? Muitas vezes somos os protagonistas das nossas histórias, somos os interpretes das nossas próprias palavras, somos o ensaio da nossa originalidade de apenas querer refletir, desabafar e decorar um discurso. Duvido que não exista ninguém que já tenha xingado uma pessoa sem sua devida presença, xingar sem machucar é fazer um desabafo de dentro pra fora, é dizer o que pensa com todas as palavras e longe de todos, é falar em silêncio escutando a própria voz.
Quem já não ensaiou uma desculpa esfarrapada? Ensaiar o que se pretende dizer nos coloca num grau de reflexão maior do que falar sem pensar. Dialogar sozinho é aprender a nos colocar no lugar do outro, é partilhar o próprio momento.
Quem já gravou a própria voz e depois se decepcionou com o que escutou? É normal. Acontece com todos. As pessoas não possuem muito o simples hábito de se ouvir. E quando isso ocorre, acabamos por decepcionar os próprios ouvidos. Até mesmo o hábito de se ler decepciona, porque as próprias letras descompromissadas foram sendo computadorizadas. Escrever algo num papel e guardar numa gavetinha é tão bom quanto abrir a mesma gaveta num certo tempo depois e passar os olhos sobre nossas alusões, sobre nosso paradigma de querer escrever e guardar para sermos lidos com o passar do tempo. Escrever um poema para cada período de nossas vidas nos faz crer na evolução dos nossos sentimentos.
Quem já usou o carro como um profissional terapêutico das nossas idas e vindas do serviço? O carro nos escuta, o carro nos leva e também responde. Ele responde ao nosso modo, responde aquilo que queremos ouvir, nos responde com a nossa música favorita. Apenas apertar play e começar a reflexão, e pronto já estamos num outro mundo. Cantamos quando há música e resmungamos quando há o silêncio.
Quem já criou e recriou diálogos nas ruas, avenidas, em frente ao computador? Muitas vezes já falamos com ex-maridos e raramente fizemos as próprias respostas do diálogo. Quantas vezes já discordamos dos nossos chefes sem ao menos eles saberem da nossa vontade de esmagá-los? Quantas vezes... Uma, duas, três... Várias... Muitas... Quase sempre, sempre. Nem por isso passamos por loucas, falando sozinha ou não. Mas falar e gesticular ao mesmo tempo já é demais pra dois ouvidos. Há sempre um interlocutor oculto entre as duas paredes.
Seria um psicodrama falar sozinho? Talvez fosse a palavra mais refinada para definir nossa ansiedade, segundo o ator Caio Blat. Falar sozinho é uma segunda chance que a vida nos oferece, vá saber do estrago que faríamos para nossos chefes, amigos, vizinhos e professores se o desabafo acontecesse olho no olho, cara a cara e sem pensar...

2 comentários:

D'angelo disse...

esse comentário por exemplo, ele só será um diálogo quando vc dispor resposta. Enquanto isso, estou falando sozinha.

Amei seu blog!!!

Camila Jornada "Análise do ser" disse...

olá,
grata pela passada em meu blog.
gostei do teu canto também.
beijos meus...