aos dias de pôr, próxima aos do nascer

terça-feira, 24 de setembro de 2013

eu não existo


Eu já sei que sois olho feroz
e lábios da raiva, sei que sois
também a ela, uma mulher invisível
tão visível quanto a minha divisibilidade

quem disse?
pra morrer tem de deixar aparecer?
sois eu dentro de um vácuo sufocante
à espera de uma dia para nascer,
fazer da morte, o amor
que talvez tu possas ter

Mas eu fui precipitada e fiz por morrer,
babei, beijei e beijei
e boba e boa que fiquei!

Teu lábio, digo eu que não existo,
és a sensibilidade trêmula faminta
aos meus para te fazer mexer
ele me arde sem querer doer,
ele me solda sem querer distanciar
ele me fala sem querer calar
ele me matou sem querer voltar
dores nem sinto,
nem ao menos vivo pra te fazer
doer…

Teu beijo, veneno do qual me sugou
sendo o mesmo o qual passei a te pertencer
sois o corpo estranho ao teu organismo
ao tempo que rejeita,
no mesmo, desajeita…
queria ser tua peça pra me desencaixar
sair, aos poucos, desse fúnebre
desconhecimento


Sois cega ao meu velório
e tão quente à nossa cremação

E se eu fosse visível?
talvez não me enxergaria nos teus olhos
não me sentiria no teu beijo
fosse, por assim, bom demais pra ser verdade...
eu e você, olho a olho
em via pública, numa verdade nua e cega!

...e não sobreviria para contar a loucura
de como aconteceu!

e sois também, além de não vista,
sois nada, o refúgio de uma faísca, bem rápida
uma quase nada que nem a mim mesma

quis conhecer…

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