aos dias de pôr, próxima aos do nascer

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Alma inquieta

Do Olavo...


Sacrilégio


Como a alma pura, que teu corpo encerra,

Podes, tão bela e sensual, conter?

Pura demais para viver na terra,

Bela demais para no céu viver...

Amo-te assim! – exulta, meu desejo!
É teu grande ideal que te aparece,

Oferecendo loucamente o beijo,

E castamente murmurando a prece!

Amo-te assim, à fronte conservando
A parra e o acanto, sob o alvor de véu,

E para a terra os olhos abaixando,

E levantando os braços para o céu.

Ainda quando, abraçados, nos enleva
O amor em que me abraso e em que te abrasas,

Vejo o teu resplandor arder na treva

E ouço a palpitação das tuas asas.

Em vão sorrindo, plácidos, brilhantes,
Os céus se estendem pelo teu olhar,

E, dentro dele, os serafins errantes

Passam nos raios claros do luar:

Em vão! – descerras úmidos, e cheios
De promessas, os lábios sensuais,

E, à flor do peito, empinam-se-te os seios,

Ameaçadores como dois punhais.

Como é cheirosa a tua carne ardente!
Toco-a, e sinto-a ofegar, ansiosa e louca...

Beijo-a, aspiro-a... Mas sinto, de repente,

As mãos geladas e gelada a boca:

Parece que uma santa imaculada
Desce do altar pela primeira vez,

E pela vez primeira profanada

Tem por olhos humanos a nudez...

Embora! hei de adorar-te nesta vida,
Já que, fraco demais para perde-la,

Não posso um dia, deusa foragida,

Ir amar-te no seio de uma estrela.

Beija-me! Ficarei purificado
Com o que de puro no teu beijo houver;

Ficarei anjo, tendo-te ao meu lado:

Tu, ao meu lado, ficarás mulher.

Que me fulmine o horror desta impiedade!
Serás minha! Sacrilégio e profano,

Hei de manchar a tua castidade

E dar-te aos lábios um gemido humano!

E à sombria mudez do santuário
Preferirás o cálido fulgor

De um cantinho da terra, solitário,

Iluminado pelo meu amor...


(do livro "Poesias", Editora Itatiaia Limitada)



Um comentário:

Anônimo disse...

Corra o risco. Se der certo, felicidade. Se não, sabedoria.