aos dias de pôr, próxima aos do nascer

quinta-feira, 17 de março de 2016

Desde que te perdi


Desde que te perdi


Desde o último abraço que me distanciou de ti, não tinha dúvida alguma de que seria o derradeiro. Já estávamos na lenga-lenga da vida de que começar do zero não nos levaria a recomeçar como da primeira vez, como foi: meu primeiro amor, o nosso amor…

Lembro que o tempo era cinzento e o vento vinha do Norte. No momento em que cheguei a tua casa, senti que mais coisas viriam com aquela aragem: tudo era despedida, mas nada me colocava em desespero de não aceitar as coisas indo embora. Pois os lances que conferia a mim eram belos e respaldados de respeito e reconhecimento de coisas capazes e nem tão alegres que fossem, dávamos risadas e gozávamos muito bem os detalhes tristes. Tais fatos de uma vida comum, mas que deveríamos não viver mais o que não nos cabia durar poucos anos, daquele jeito.

Nesta tarde, logo que sentei no sofá, agarrei a almofada esverdeada que tanto fora deixada de lado – quando nos encontrávamos no mesmo assento – dando colo a ela. Tive a percepção de que ali em diante, careceria, então, de conforto, de ti. Mas estava evidente a minha vontade de escrever sobre o nosso último abraço. E, desde que te perdi, cada vez mais leio o que escrevi porque cada vez lembro menos a nossa última vez: nossa despedida num último abraço sentido que seria o primeiro a nos libertar a olhar mais para os lados e seguir diante de outras possibilidades que a vida nos ofereceria: Outro amor!

Foi assim, então, que escrevi sobre ele, desde que te perdi: publico em primeira vez o último abraço do qual nos envolvemos.

“Um abraço, um abranjo que recebi depois da última vez que me abraçou também. Sinto, meu amor, a última vez que deveríamos nos arrendar. Esse que auferi quando passou segundos da meia-tarde, amei. Senti o corpo duas vezes, compreendi-me num aperto confortável de que além do abraço nada mais seria próximo. Foi o que deveríamos nos oferecer desde o primeiro encontro. Mas não. Aproximamos as bocas e toques mais sutis, apenas.

Eu, definitivamente, segui de forma espetacular, simples: envolvi em mim toda a ternura de não mais forçar um encontro. Apenas adorar tua fisionomia e agradecer pelas flores e acerolas que havia me presenteado.

Um abraço que retomou os meus espectros da física quântica. Os elétrons incendiaram o nível máximo da felicidade. Abracei desprovida do medo de sofrer depois. Fiz pelo fato de amar o que constitui e representa meu Ser. Dar e receber amor, amar. Enfim, diante de todas as orquídeas e frutas do cosmos, amei beijar a constituição da tua vida, da alma de um ser que nem eu. Igual a mim.

Desejo todos os abraços mais sentidos e confortáveis que a vida possa te presentear. Desejo um desejo mais desejado que a ti faça sentir. Desejo o abraço mais formidável além da dádiva que sentiu em me abraçar. Desejo que alguém te abrace em todos os momentos que carecer. Desejo que um ser consiga te fazer feliz além do jeito que eu consegui te fazer. Desejo-lhe a vida das folhagens, das plantas que produzem frutos, dos animais que ousam te preencher. Desejo alguém acima das coisas que não consegui fazer, que não conquistei, que não nasci no teu tempo, que não consegui acertar os tempos desiguais para igualar nossas formas de ter.

Por último, aquele abraço da última vez. O mais demorado com um propósito: de não mais nos esquecer. Neste momento, abraço palavras que jamais esquecerei de ler, de escrever, por ti, meu amor, poetar pra aproximar teu ser.

Eu quis tanto teu amor, tantas coisas. O cosmos afastou os encontros, mas seguirei o próximo livro em imaginações férteis de realizar tudo que não pude te satisfazer.

Nada a mais voltará em sua normalidade, os dias que me correspondeu já foram o suficiente para explicar as razões das quais não poderia continuar.
Agora, meu amor, já estou entendida. Não precisa explicar mais nada, sei os motivos que nos afastam de viver.

Amei cada atração que nos transmutaram em apenas durar. De jeito ou de outro, de tempo e oportunidades, de idades e ambições, entrego todas as possibilidades as tuas compreensões de não seguir adiante nesta vida que eu ainda almejava ter muito perto de ti. Amei a altura jamais alcançada pela minha própria medida.
Confiro-lhe um beijo abraçado, de urso. Gostaria que ficasses com todos os meus alentos e felicidades daquele último encontro, na simplicidade deste ser que, a partir de agora, não te pertence mais.”

            Após essa sucessão de palavras e sentimentos, chego à conclusão de que nossas maiores proximidades ficaram nas vezes em que nos amamos menos exclusivamente. Caso eu não consiga, um dia, lembrar o teu rosto eu não sentirei medo da morte. E desde que te perdi, desenho teu rosto no espelho. Toco a face, em ilustres movimentos harmônicos. Uma expressão sem par. É monstruoso dizer que sinto o teu corpo quando aliso o meu. Ouço tua voz quando escuto a minha. Corpo contra o próprio corpo produz erotismo, te produziu. Mas agora, o meu corpo não mais poderá trazer o teu e o espelho terá de refletir somente a minha expressão de despedida.
           
            E desde que te perdi, o café se passou assim:

Quando provei o primeiro gole de café, meus lábios já se vestiram de prazeres cafeínados. Comecei a deslizar os lábios em volta da xícara, lentamente fui cheirando o vapor quente e dando voltas sedutoras. Logo enxergo teus lábios no reflexo daquela cor escurecida. Beijamo-nos de jeito vaporizado e possuído de cafeína. Aquele aroma me induziu a ti, em cada gole, meu corpo aquecia mais fortemente. Tomei despercebida das coisas cotidianas da vida que te trazem a mim. Quando dei o último sorvo, enxerguei-me no fundo da xícara e nada mais pude beijar. Onde estaria? Evaporou com ele também? Jamais. Desapareceu por dentro de mim e ali se aquietou.

Achei que nada mais traria teu rosto, teus beijos e aqueles encontros. Só achei mesmo. Te achei ainda num cantinho de mim. Não sei se no coração ou na alma. Não sei se na dor ou na felicidade mesmo. Achei e pronto. Sem menção de procurar fui entendendo que uma sobra de ti ainda restava bem aqui dentro, bem fechada. Algo bom que foi guardado para lembrar nos momentos prazerosos da minha rotina.

Como sucedeu aquele café, mais alguns beijos puderam beijar. Seria amor tudo isso? O que é amor nesse momento? Eu amei aquele café passado, mas passou. Ele acabou também. Segui, então, para outras etapas da vida comum e não me incomoda o fato de o cheiro do café te trazer porque desde que te perdi eu é que compreendi que o aroma fica por um tempo e depois vai embora, evapora. Agora sim, meu último abraço e adeus…





3 comentários:

Anônimo disse...

Adeus.

Anônimo disse...

Nossa;
Posso ser o seu café?!
total, "o aroma fica por um tempo e depois vai embora, evapora.", não me importo.

Anônimo disse...

O teu encanto por mim começou na descrição do teu abraço.
A nossa despedida terminou contigo nos meus braços.
Ninguém vive o que sonha.
Feliz é o poeta, que vive os seus versos.
Não conheci nenhum, até hoje.